TERCEIRA FASE DO PLANO DE ANIMAÇÃO

A Vida de Comunidade Spiritana

Como sabem, estamos neste momento a meio do nosso programa de animação de toda a Congregação tal como foi pedido pelo Capítulo Geral de Bagamoyo.

Nos últimos três anos, temos refletido, partilhado e rezado juntos sobre a nossa vocação e identidade Espiritanas, e sobre o papel do Espírito Santo na nossa vida e ministério. O recente Conselho Geral Alargado, que teve lugar aqui em Roma, analisou a implementação do plano de animação até à data e voltou a sublinhar a sua importância vital para a renovação da Congregação. Propôs também formas concretas de melhorar a sua eficácia à medida que avançamos. A partir das experiências partilhadas, é evidente que algumas circunscrições e comunidades aderiram entusiasticamente a este plano, aproveitando os vários vídeos e documentos distribuídos pelo Conselho Geral; para outros, lamentavelmente, foi uma atividade periférica, muitas vezes perdida na miríade de outras actividades que moldam o seu atarefado estilo de vida. À medida que o Conselho Geral vai explorando formas mais criativas de implementação do plano, empenhemo-nos novamente o mais que pudermos neste processo, conscientes de que, num sentido muito real, o futuro da nossa vida e missão espiritanas dependem da medida em que o fizermos.

Durante os próximos dezasseis meses, a partir de amanhã, 02 de outubro, iremos focar-nos na nossa vida de comunidade Espiritana. “A vida de comunidade é um elemento essencial do estilo de vida espiritana”, afirma a Regra de Vida Espiritana [RVE 28]. Para Francisco Libermann, a vida de comunidade era um elemento central na sua visão da Sociedade Missionária que fundou; ele insistiria na vida de comunidade como condição essencial para a fusão da sua Sociedade com a Congregação do Espírito Santo. “A Congregação adoptou a vida em comunidade como seu princípio fundador”, afirma a Regra de Vida Revista de 1849, “os seus membros devem viver todos em comunidade em todos os momentos” (ND X, 454). Aqueles que não eram capazes ou não queriam viver a vida em comum não deviam  ser aceites na Congregação: “aqueles que não têm as disposições necessárias para praticar fielmente a regra de viver entre os seus confrades com a piedade e a caridade que a vida de comunidade exige… devem ser mandados embora [ND X, 457]. Ele acrescenta que” um espiritano não faz o seu compromisso com um bispo, mas com a Congregação… e assim o superior não pode confiar confrades a um bispo, a menos que essa condição esteja salvaguardada” (vida comunitária) [ND IX, 99, 188]. Embora ele tenha reconhecido que, por razões pastorais, alguns confrades pudessem ser chamados a exercer o seu ministério sozinhos, ele insistiu que isso só poderia acontecer “por um curto período de tempo, e que só a título excepcional e por razões muito graves as comunidades aceitarão paróquias, e sempre na condição de que os membros que as assumem vivam em comunidade e observem a sua regra” [ND X, 455, 469].

O próprio Libermann explica por que considerava a vida comunitária tão importante: “Quando uma pessoa vive em comunidade e em tudo é dirigida pelo mesmo superior, o bem que se faz é incomparavelmente maior do que se cada um trabalhasse isoladamente… As coisas são feitas com maior energia … tudo é pensado melhor e devidamente executado… uma vez que todos estão encarregues do trabalho para o qual têm mais aptidão, tudo se executa de um modo melhor” [ND II, 71]. Acima de tudo Libermann viu a vida de comunidade como essencial para a estabilidade e a extensão das obras da Congregação e para a santidade pessoal de cada um dos seus membros, de que depende a eficácia da acção missionária da Congregação [ND X, 454]. No entanto, ele insistia que a vida comunitária não era simplesmente um agregamento físico de pessoas em ordem a uma maior eficácia, mas uma “união de mentes e de corações para um propósito comum” [E.S. 141] e, no final da sua vida, condenava a tendência de alguns membros da Congregação para abandonar a vida de comunidade por causa do apostolado, vendo-a como um obstáculo para a missão, uma atitude que ele considerava ser um falso zelo missionário que, em última análise, minava a visão missionária unificada da Congregação [ND XIII, 293-294].

Entre os textos mais inspiradores produzidos pelos últimos Capítulos Gerais estão certamente as páginas relacionadas com a vida de comunidade Espiritana. “Construir comunidade nunca pode ser da responsabilidade de apenas uma pessoa”, declarou o Capítulo de Maynooth. “Os confrades deveriam recordar com frequência que, longe de ser um simples arranjo de conveniência, a vida comunitária é uma fonte de inspiração essencial para o cumprimento da sua missão. Fortalecemo-nos a nós próprios e uns aos outros através da oração pessoal e comunitária, da partilha de fé, da amizade e apoio”(3,8). Os confrades terão um interesse genuíno pelo trabalho de cada um, e aqueles que trabalham juntos irão fazê-lo enquanto equipe e não enqanto indivíduos. A comunidade é o lugar onde refletimos e discernirmos juntos sobre a nossa missão… Acima de tudo, é um lugar para o encorajamento mútuo, especialmente para aqueles confrades que atravessam um período difícil (3.9). Todas as estruturas permanecerão vazias e sem vida se cada membro da comunidade não estiver disposto a dar-se de alma e coração ao espírito e ideal subjacentes a essas estruturas. Isto exige nada menos do que uma conversão diária” (Introdução 4.9)

Nestes últimos anos, talvez tenha vindo a crescer mais significativamente na nossa Congregação a tomada de consciência de que o caráter cada vez mais internacional e intercultural da nossa comunidade em todo o mundo é parte integrante da nossa missão enquanto Espiritanos no mundo contemporâneo, e não simplesmente uma consequência inevitável da expansão geográfica dos nossos compromissos. Num mundo em que os conflitos, o racismo eo culto do indivíduo são demasiado prevalecentes, “ao nos juntarmos, vindos de tantos lugares e culturas diferentes, estamos a dizer aos nossos irmãos e irmãs que a unidade do género humano não é apenas um sonho impossível. Desta forma, a nossa vida de comunidade é uma parte integrante da nossa missão e um forte testemunho evangélico” [Maynooth, p.117]. Viver em comunidade internacional é uma “resposta ao apelo, que o Espírito Santo a todos nos faz, a testemunhar uma nova qualidade de solidariedade humana, superando o individualismo, o etnocentrismo e o nacionalismo” [Torre d’Aguilha 2.1].

De modo semelhante, o testemunho dos nossos irmãos aposentados e doentes que vivem em comunidade é parte integrante da sua missão no crepúsculo das suas vidas; é simplesmente uma continuação da sua vida missionária de um modo novo e talvez mais profundo [Maynooth, Introdução 4.16; Torre d’Aguilha 5.4.4]. No mundo contemporâneo, em que os seres humanos tendem a ser medidos e avaliados pela sua capacidade de produzir e consumir e em que os idosos ficam muitas vezes isolados e esquecidos, é inegável a importância do testemunho dos nossos irmãos idosos e doentes que vivem em comunidade e aceitam as suas limitações e sofrimentos com alegria, dignidade e graça.

Ao relermos estes textos, percebemos que a nossa realidade vivida fica muitas vezes aquém da visão que professamos nos nossos documentos. Muitos de nós vivem sozinhos com ligações mínimas à Congregação, não muito diferentes dos nossos homólogos diocesanos. Damos prioridade às reuniões e eventos diocesanos, em prejuízo dos da Congregação. Nos casos em que se reside sob o mesmo teto, às vezes existem vidas paralelas, com pouco interesse pelo trabalho ou pelas lutas dos confrades com quem se partilha casa. As reuniões comunitárias, quando existem, são por vezes momentos simplesmente de partilha de informação, em vez de ocasião para uma profunda reflexão sobre a nossa vida como Espiritanos e de discernimento sobre os nossos compromissos missionários. A oração comunitária é por vezes uma mera formalidade, em vez de ser uma fonte de inspiração para a nossa vida e ministério.

Ao entrarmos na terceira fase do nosso plano de animação, perguntemo-nos simplesmente sobre o que podemos fazer para colmatar a discrepância entre a realidade que vivemos e a visão que apresentamos aos outros na nossa Regra de Vida Espiritana e nos nossos documentos capitulares. Ao fazê-lo,recordemos o desafio que nos foi dirigido pela Congregação para os Religiosos durante o ano da Vida Consagrada: “A comunidade é o primeiro e mais credível Evangelho que podemos anunciar” [Alegrai-vos, no. 9].

P. John Fogarty, C.S.Sp.

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