Libermann’s Spiritual Testament in Portuguese

Quanto mais avançamos mais podemos convencer-nos que a nossa querida Missão da Guiné é uma obra de paciência, de abnegação, de mansidão e de abandono a Deus. Sr. Bispo, se há missionários que devam sentir necessidade de ser santos, esses devemos ser nós mais que quaisquer outros. Se os missionários da Guiné não tiverem um alto grau de santidade, tornar-se-ão joguete do demónio que se afinca tanto em molestar-nos, em atormentar-nos de toda a forma e feitio. Vejo agora mais que nunca que a nossa vida deve ser uma vida de total sacrifício: é necessário que cheguemos a uma tal abnegação de nós mesmos nas pequenas como nas grandes coisas, que fiquemos impassíveis diante de tudo o que nos acontecer; temos de contar com todas as canseiras, todas as privações, todos os sofrimentos, dificuldades de todo o género, e permanecer firmes diante de Deus, na paz, na humildade, na mansidão e com plena confiança na sua misericórdia; não desesperar de nada, nem nos exaltarmos com nada, moderar a nossa alegria no sucesso e ser pacientes
na adversidade; em tudo manter a calma como homens que se apoiam unicamente em Deus, que fazem só a obra de Deus, sem nenhum auto-comprazimento; e de tal modo que se as coisas nos correrem bem nos alegremos em Deus e para Deus, por Ele ter realizado em nós os seus desígnios, sendo suave e tranquila a nossa alegria; e se nos correrem mal, se formos travados no nosso caminho ….

Não é para lhe fazer qualquer tipo de observação que lhe digo isto, mas para verter no seu o meu coração. Nem imagina a impressão que me faz o esforço do inimigo para travar o progresso da palavra de Deus e a efusão da sua graça, e sobretudo para misturar defeitos e imperfeições com o zelo e generosidade de nossos queridos missionários. Muitas vezes medito diante de Deus no que nos tem acontecido desde o começo desta santa Missão e vejo que Deus nos quer humildes, submissos a todas as suas adoráveis vontades e entregues só e totalmente a Ele; para Ele abençoar os nossos trabalhos é preciso que os nossos missionários se ocupem seriamente de sua própria santificação; só então é que Deus nos abençoará, e é por isso que nos obriga a parar; Ele quer moderar o ardor de nossos desejos e o entusiasmo da nossa ação para não sermos soberbos; prova-nos pela dor, sofrimentos e contrariedades de todo género para nos manter na humildade e nos santificar pela paciência, pela mansidão e pelas práticas santas e santificantes da vida religiosa.

O que mais me impressiona é que Deus nos tenha encarregado desta Missão da Guiné, dê a todos um desejo ardente de converter esta terra e ao mesmo tempo nos detenha a meio da nossa marcha, e nos tire precisamente aqueles que pareciam os mais capazes de apoiar os seus esforços e os meus. De entre os que Deus quis chamar a si desde que nos enviou a essa infeliz terra, há nove anos, oito ou nove poderiam dar excelentes superiores de comunidade e talvez mesmo de missão; deixa-nos só os menos capazes. […] Que dizer deste modo de proceder de Deus? A seu tempo, Ele nos manifestará os seus desígnios; no entretanto, creio ver nisso um sinal de que a divina Bondade nos quer humilhar e fazer ver em que conta devemos ter os nossos esforços e as nossas pessoas. Confesso-lhe, Sr. Bispo, que não ouso afligir-me com todas estas desgraças nem com as dificuldades delas resultantes por estar convencido que tudo isto faz parte dos seus desígnios de misericórdia para connosco e para com este pobre povo, que estamos encarregados de evangelizar. Há um pensamento que me tem vindo com frequência, e algumas vezes até me tem preocupado muito: tenho pensado muitas vezes que, se tem sido do agrado de Deus tratar-nos tão duramente, é para nos corrigir misericordiosamente pelos nossos pecados. Parece evidente que Ele quer que salvemos esta terra mais pela nossa própria santificação que pelo nosso zelo; quero dizer com isto que a santa vontade de Deus é que no meio desses povos levemos uma vida toda santa e tenhamos um cuidado muito particular em praticar as virtudes sacerdotais e religiosas, a humildade, a obediência, a caridade, a
mansidão, a simplicidade, a vida de oração, a abnegação, etc. Isto deve ser objeto de todos os nossos cuidados, e de modo nenhum impedirá o exercício do zelo apostólico, antes pelo contrário lhe dará mais consistência e perfeição.

É o caminho seguido pelos santos religiosos que converteram a Alemanha e a Inglaterra, é o que Deus quer que sigamos, o único capaz de atrair as suas bênçãos. Ora, parece-me que alguns de nossos caros confrades se deixaram desviar dele: cheios de ardor e de generosidade, deixaram-se arrastar pela ideia do zelo; esta ideia levou-os para o que é exterior, distraiu-os dos exercícios interiores e das virtudes da vida religiosa, evangélica. A ação do clima, que agita e irrita as sensações, ao dar com eles assim demasiado superficiais e pouco sólidos nas virtudes interiores, deveria naturalmente juntar a sua
colherada e tornar-se nas mãos do demónio um instrumento para desviá-los da vida de perfeição.

O que os poderá ter induzido a este falso caminho, foi a ideia inexata de seu estado de vida. Estes pobres filhos, tendo deixado o seu país para serem missionários, mantiveram sempre esta ideia: antes de tudo, sou missionário; como consequência e sem se darem conta, não dão a devida importância à vida religiosa e entregam-se demasiado à vida exterior; é uma conjetura que partilho consigo. Ora bem, se tal conjetura tiver fundamento, seria importante esclarecer estes caros confrades, fazer-lhes ver que a missão é sem dúvida o fim, mas que a vida religiosa é um meio sine qua non e que este meio
deve merecer-lhes o máximo cuidado e atenção. Se eles forem santos religiosos, salvarão as almas; se não, nada feito, porque a bênção de Deus está ligada à santidade deles e esta depende unicamente da fidelidade às práticas da vida religiosa.

Asseguro-lhe que, às vezes, passo momentos muito penosos, quando penso nos sofrimentos contínuos desses pobres filhos e na generosidade com que os suportam; digo para mim mesmo que haveria aí matéria para fazer grandes santos, se estivessem bem imbuídos do espírito de suas Regras, se cultivassem bem a vida e as virtudes interiores e religiosas, e que por falta desta fidelidade ao espírito de nossas Regras e desta atenção à vida interior e religiosa, perdem um mérito imenso, que seria um tesouro inesgotável para
essa pobre terra que evangelizam, e só a meias é que agradam a Deus; isto dilacera-me o coração. […] No entanto, no fundo, todos os seus missionários são bons, e se tivessem este espírito religioso, interior, se trabalhassem com fidelidade na observância da Regra e nas práticas interiores, os seus defeitos diminuiriam. Creio que um dos pontos a que terão de prestar mais atenção é à agitação e irritação produzidas pelo clima e sobretudo pelas febres frequentes.

Tenho uma ideia, que lhe confio tal qual, e faça como entender melhor; é que talvez você fizesse bem em dirigir uma instrução aos missionários para lhes ensinar o que Deus pede do zelo e da fidelidade deles. Nela poderia acentuar as mágoas e inquietações que lhe manifesto, apresentar as ideias gerais que lhe comunico, os exemplos dos apóstolos da Alemanha e Inglaterra que refiro; você vincaria as suas ideias, desenvolvendo-as, aplicando-as às atividades, aos defeitos e às falhas que conhece, conforme a prudência lho permitir; poderia concluir com normas práticas para a vida interior e para a conduta
exterior e com conselhos sábios, moderados e firmes; fazendo assim, teria dado o impulso inicial e depois era só manter o que tivesse prescrito. Seria sobretudo importante instruir muito em especial os que estão à frente das comunidades para que o apoiem na vivência das Regras, do espírito religioso, etc. …

Deus pôs-nos à prova em Caiena tal como na Guiné. Dos três missionários que para lá mandei, aprouve a Deus levar-nos, passados três meses, o superior, o P. Thoulouse211…. Louvado seja Deus! Só Ele é o dono tanto do nosso pessoal como das nossas obras…. Estou muito feliz por ter uma dor para lhe oferecer….