Os escritos de Libermann

Libermann exorta-nos a praticar a caridade em todas as circunstâncias, a identificar-nos com aqueles que servimos e a construir a paz, a solidariedade, a justiça e a liberdade, as quais encontram pleno cumprimento em Jesus Cristo. Os seus escritos iluminam os princípios que estão por detrás da fé, da missão e da forma de viver dos Espiritanos.

A Congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Maria,
sua finalidade e meios de a atingir.

“A Congregação dos Missionários do Sagrado Coração de Maria é uma associação de padres, que, em nome e como enviados de Nosso Senhor Jesus Cristo, se dedicam totalmente a anunciar o seu santo Evangelho e a estabelecer o seu reino entre as almas mais pobres e mais abandonadas da Igreja de Deus. Daí, os artigos que seguem.

Devem considerar-se como apóstolos enviados por Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso devem levar profundamente gravadas em seus corações, e anunciar por toda a parte, as santas máximas de seu santo Evangelho; fazer conhecer os seus santos mistérios e as suas divinas vontades àqueles que as ignoram; atrair a Jesus as almas que se perdem e encher de amor e de santidade os que estão no bom caminho.

Não perderão de vista que devem estabelecer o amor e o reino de Jesus Cristo nos outros; e que primeiro, com Maioria de razão, devem estabelecê-los do modo mais sólido e mais perfeito em suas próprias almas.

O seu divino mestre envia-os às almas mais pobres; por isso, só podem empreender missões entre as que são mais abandonadas e mais esquecidas. Têm de se lembrar constantemente que são consagrados a estas pobres almas, considerando-se como seus servidores, não tendo nem pensamentos nem desejos nem ocupações que não sejam para a salvação delas.

Devem constantemente ter-se na conta de infinitamente indignos de uma tão grande vocação e absolutamente incapazes de desempenhar as grandes e divinas funções dela. Depositarão toda a sua confiança no mestre que os envia e hão de procurar fazer tudo o que puderem para corresponder, o mais perfeitamente possível, aos grandes desígnios que Deus tem para eles.

Em 1845, deu alguns conselhos finais antes da partida de dois dos seus membros de Bordeus para o Gabão:

“Não contem com as vossas forças, com a vossa prudência, com a vossa ação. Só Deus e Maria: aí está onde devem depositar a vossa confiança… Sim, que a sua alma seja sempre bem guiada pelo olhar da fé, sempre apoiada nos princípios do Evangelho; mas sem que isso o dispense de refletir sobre as coisas e agir com maturidade e após deliberação. Tanto quanto possível, nos assuntos importantes passe à fase da ação só quando vir claro – procure ao menos entrever as coisas antes de empreendê-las -. Não deixe nada ao acaso, quanto possível preveja tudo; mas, uma vez tomadas todas as precauções, ponha só em Deus a sua confiança.”

Em 1939, Libermann escrevia ao seu director espiritual, P. Gallais, sobre a sua “Obra dos Negros” nas ilhas de Bourbon (actual Reunião) e Haiti:

“No que diz respeito aos negros, muitíssimo mais numerosos que os brancos, nem os párocos nem os seus vigários se ocupam deles. A única preocupação dos patrões, todos eles sem religião, é conseguir o Maior rendimento material possível dos negros, de maneira que esta gente, já de si miserável, vive sem a mínima instrução religiosa. A sua ignorância é total e não sei se, em cada dez pessoas, haverá três ou quatro que saibam fazer o sinal da cruz.”

Libermann considera a salvação que os padres poderiam trazer a estas gentes.

“Depois de contactar um pouco com os habitantes desta terra, ficamos convencidos de que se houvesse um punhado de homens apostólicos que se decidissem a oferecer-lhes o pão da Palavra divina, eles o guardariam para o resto da sua vida, porque, apesar da corrupção generalizada de costumes, entre eles há um gérmen de fé, uma disposição para acreditarem, de tal maneira que a semente que porventura se lançasse nos seus corações não deixaria de produzir frutos preciosos. Parece-me que podemos dizer que se não têm fé nem piedade é porque não têm padres.”

Libermann sugere que os missionários deveriam viver ao mesmo nível daqueles que querem atingir com a sua acção missionária.

Para que os missionários sejam bem sucedidos nesta missão tão maravilhosa, é preciso que adotem um género de vida ainda mais pobre e mais austero que o dos negros; se estes constatarem que os seus missionários levam uma vida mais confortável que a deles, não os  escutam; aliás, Nosso Senhor, para se sentir no direito de pregar a pobreza e a mortificação, quis nascer numa manjedoura e morrer na cruz.

É preciso que eles se decidam a amar, a acarinhar os negros como seus irmãos e seus filhos, e que a amizade e ternura para com eles superem muito em afeto as suas relações com os brancos. É preciso que convivam de tal maneira com os negros que se pareçam com eles, até no desprezo de que são objecto por parte dos outros brancos.

Os missionários devem amar os Negros como uma mãe ama os seus filhos, escreveu ele:

É preciso que o comportamento dos missionários para com os negros seja tal que estes pobres se convençam que um missionário se daria por feliz se tivesse de morrer para os
livrar de qualquer malefício, de qualquer sofrimento. Desta maneira eles terão absoluta confiança neles. É preciso que os missionários os amem de maneira apaixonada em Nosso Senhor, tal como Jesus, nosso Mestre divino nos amou na cruz e continua a amar-nos no Santíssimo Sacramento, ou como a mãe que ama apaixonadamente os seus filhos. Como persuadi-los a amar assim, se, etc.

As Missões devem ser construídas sobre fundações estáveis e sólidas, baseadas nas condições locais:

“É relativamente fácil empreender uma missão, conseguir nela algum sucesso com a graça de Deus, o que, aliás, é a obrigação, a preocupação única de todo o missionário animado de zelo pela glória de Jesus Cristo; mas reunir todos os recursos para aumentar, dilatar e fortalecer este sucesso, formar uma obra sólida e estável, colocá-la ao abrigo de toda força inimiga que procure prejudicá-la, prever os obstáculos e tomar as medidas para os evitar ou ultra-passar, apoiar, enfim, e consolidar sobre bases firmes a obra apostólica tal como Jesus Cristo a fundou, tudo isso são coisas muito difíceis e cuja responsabilidade recai sobre nós que estamos encarregados da direção desta obra tão importante.

Pregar o Evangelho significa, em primeiro lugar, partilhar a vida daqueles a quem sois enviados, escreveu Francisco Libermann aos seus confrades em Dakar e no Gabão, em 1847:

“Não julguem à primeira vista; não julguem pelo que viram na Europa, por aquilo a que foram habituados na Europa; despojem-se da Europa, dos seus costumes, do seu espírito; façam-se negros com os negros, e serão capazes de os apreciar como eles devem ser apreciados; façam-se negros com os negros para os formarem como eles devem ser formados, não à maneira da Europa, mas deixando-lhes o que é deles; adaptem-se a eles como os criados se adaptam aos usos, costumes e hábitos de seus donos; procedam assim para os aperfeiçoar, os santificar, lhes restituir a dignidade, e pouco a pouco e com o tempo, fazer deles um povo de Deus. É o que São Paulo chama fazer-se tudo para todos, a fim de ganhar todos para Jesus Cristo..”

Libermann colocou no papel a essência da vida apostólica espiritana ao escrever a Regra de  1849:

“O seu fim é dedicar-se à salvação das almas mais abandonadas; por isso, a vida de seus membros deve ser a vida apostólica, e devem aplicar-se à aquisição das virtudes caraterísticas duma tal vida. Para o aperfeiçoamento dessa vida apostólica, para a conservação do fervor nos seus missionários, e para a estabilidade e extensão de suas obras, a Congregação tomou por regra fundamental e invariável que os seus membros
vivam sempre em comunidade.

Pobres, mas com esperança em Deus – Libermann oo primeiro grupo de missionários que partiam para a África, em Agosto de 1843.

” Somos para aqui uns pobres coitados, reunidos pela vontade divina do nosso Mestre, nossa única esperança. Se dispuséssemos de meios poderosos, pouco faríamos de bom; mas porque nada somos, nada temos e nada valemos, podemos realizar grandes projetos, porque as esperanças não estão fundadas em nós, mas naquele que é todo-poderoso. Não se aflija por suas fraquezas e pobreza; é num estado assim de miséria que o poder de Jesus e a sua misericórdia se devem manifestar, e então a glória será toda para Ele, o machado não irá vangloriar-se esquecendo-se de quem o maneja.”

Leia também sobre os últimos escritos de Libermann no seu  Testamento Espiritual e na Antologia Espiritana, com escritos de Poullart des Places e Libermann.