CARTA PENTECOSTES 2013

Somos congregados pelo Espírito de Pentecostes

Um dos aspetos fascinantes do Capítulo Geral em Bagamoyo foi a diversidade cultural dos participan-tes: dos 75 eleitos ou delegados ex-officio, 35 eram proveniente de África (5 deles representando cir-cunscrições do hemisfério Norte), 27 da Europa, 6 do Caribe, 4 da América do Norte, 2 do Oceano Índico e 1 da América do Sul. Os quatro leigos associados convidados vieram também de 4 continen-tes diferentes. Esta diversidade refletiu-se, naturalmente, na eleição dos membros do Conselho Geral, que agora é composto de sete confrades, pela primeira vez, todos de nacionalidade diferente.

É muito interessante fazer uma breve análise das estatísticas da Congregação ao longo dos últimos anos. Vejamos. Em 1980, 146 (3,9%) do total dos membros (3769) eram da África, representando quatro circunscrições de origem, e 22 (0,6%) eram da América do Sul. Doze anos depois, em 1992, a África já tinha mudado para 521 (15,8%), representando 8 circunscrições de origem, 47 (1,4%) eram do Caribe, 32 (1%) da América do Sul, 10 (0,3%) do Oceano Índico. A Europa e a América do Norte representavam 72,9% e 8,6%, respetivamente do total de membros. As últimas estatísticas publicadas em 31 de Dezembro de 2012 mostram que 1.452 (52%) dos confrades agora são provenientes de 24 circunscrições africanas, 1.068 (38,3%) da Europa, 129 (4,6%) da América do Norte, 63 (2,3%) do Caribe, 44 (1,6%) do Oceano Índico, 29 (1%) da América do Sul, com quatro da Ásia e um da Oceâ-nia. Talvez ainda mais surpreendente é o fato de que, hoje, 478 (92,8%) dos nossos 515 estudantes professos em formação são da África, 13 (2,5%) da Europa, 12 (2,3%) do Oceano Índico, com o res-tante proveniente do Norte e América do Sul, Ásia e Caribe.

Esta evolução significativa na composição demográfica e na diversidade cultural dos membros da Congregação é em si mesma um testemunho extraordinário para a relevância do nosso carisma espiri-tano no mundo contemporâneo. “A nossa Congregação é verdadeiramente um dom que Deus deu e continua a dar, à Igreja e ao mundo. Hoje, e ainda mais no futuro, a Igreja e o mundo têm necessidade do carisma que nos foi confiado – a evangelização dos pobres, à luz da espiritualidade que nos caracteriza .”

A nossa Regra de Vida Espiritana indica muito bem que a diversidade dos membros é obra do Espírito de Pentecostes, que nos une numa grande família, “vindos de culturas, de continentes, países e hori-zontes diversos” [RVE 37]. Muito mais do que uma consequência inevitável da expansão geográfica dos nossos esforços missionários ou que um testemunho do sucesso daqueles que nos precederam, a diversidade cultural dos nossos membros é parte integrante do nosso carisma no mundo contemporâ-neo. “Conflito, discriminação racial e o culto do individualismo existem muito no nosso mundo de hoje. Vivendo em comum, nós que vimos de lugares e de culturas diferentes, dizemos aos nossos irmãos e irmãs que a unidade do género humano não é um sonho impossível. Neste sentido, a nossa vida em comunidade é parte integrante da nossa missão e um poderoso testemunho do Evangelho” [Maynooth, p.117]. Vida em comunidade internacional é uma “resposta ao chamamento que o Espírito Santo nos dirige a todos, para testemunhar uma nova qualidade de solidariedade humana, que ultrapasse o individualismo, o etnocentrismo e o nacionalismo” [Torre d’Aguilha 2,1].

Há alguns anos eu próprio tive uma experiência impressionante desta realidade tão marcante. Numa visita a Auteuil – França, um dos funcionários leigos disse-me que a contribuição mais importante feita pela comunidade espiritana internacional para os alunos a quem serviam, era o testemunho real dos confrades vivendo juntos em alegria e harmonia.

Uma das importantes consequências da mudança na composição demográfica da Congregação é que estamos a ser conduzidos para uma nova compreensão da missão Espiritana. Havia tendência a conce-ber a missão nas Circunscrições mais antigas com membros do país de origem, embora mais recente-mente, face à diminuição dos membros e á sua idade, se tenha contado com alguma ajuda das novas circunscrições O fato é que, num certo número dessas circunscrições, os seus principais compromissos missionários agora, dependem significativamente, se não exclusivamente, de confrades provenientes de outras circunscrições. Estamos a ser convidados a abandonar uma ideia nacionalística da Província – onde existem aqueles que lhe pertencem e os que vieram para ajudar – para o conceito de uma pre-sença e missão espiritana num dado país. Isto é já uma realidade nos atuais grupos internacionais e é uma noção muito mais inclusiva que ajudará a criar um verdadeiro sentido de pertença à missão da Congregação. Não deixa também de ser um grande desafio não só para as circunscrições que recebem no sentido de motivar um genuíno sentido de pertença aos que vêm “de fora” mas também para os próprios confrades que chegam no sentido de se identificarem totalmente com a missão para a qual foram nomeados.

Se, tal como afirmou o Capítulo da Torre d’Aguilha, a nossa vida internacional e intercultural é um chamamento do Espírito Santo para testemunhar uma nova qualidade de solidariedade humana num mundo globalizado, as nossas circunscrições e as nossas comunidades devem ser “lugares onde a ver-dade é falada e vivida, onde a dominação e a subjugação não acontecem, onde as diferenças são re-conhecidas e afirmadas mas sem comprometer a unidade.” No seu discurso ao Capítulo Geral Do-minicano, sobre “Pregar o Evangelho no século XXI”, Robert Schreiter salientou a importância vital do testemunho comunitário: “Acentuar o papel da comunidade tem influência em tudo o resto. Antes de mais, em espelhar o tipo de comunhão para a qual somos chamados, uma comunhão que pode englobar e valorizar as nossas diferenças, mas também torná-las uma fonte de desafio e de enrique-cimento e não uma causa de divisão e diminuição… a comunidade deve encontrar hoje as suas raízes mais profundas teologicamente, num Deus trinitário onde a diferença e a unidade encontram a sua mais profunda comunhão”.

Esta visão tem um conjunto de consequências práticas para nós Espiritanos que somos chamados a viver em comunidade pela própria natureza da nossa vocação (RVE 27,28). Em primeiro lugar, é um apelo a desenvolver nas nossas circunscrições e comunidades um estilo de liderança que promova a igualdade e a inclusão, a participação na tomada de decisões e a responsabilidade partilhada. Isto, por sua vez, significa que temos uma responsabilidade acrescida quando nos reunimos em Capítulos ou Assembleias para escolher as lideranças não apenas com base nas suas capacidades organizativas ou nas suas qualidades humanas, mas também na sua capacidade em encarnar a missão que somos cha-mados a viver e a pregar. Por outro lado as nossas comunidades devem ser locais de abertura e de res-peito mútuo, onde a diversidade e a diferença de opinião são valorizadas em vez de serem vistas como um potencial de divisão e conflito. A este respeito, o Capítulo de Bagamoyo convidou-nos a refletir sobre a questão da “cultura Espiritana”, o que será um exercício mutuamente enriquecedor em com-partilhar e ouvir com vista a uma maior compreensão da inspiração que concretizamos em comum, mas que se expressa numa cada vez maior variedade de culturas. Quando surgem tensões entre nós, como inevitavelmente será o caso, é imperativo que trabalhemos para a sua cura e reconciliação no nosso próprio meio, caso contrário, o nosso ministério fica seriamente enfraquecido e o nosso testemunho vazio.

Francisco Libermann salientou que a nossa homilia mais eficaz reside na qualidade da nossa própria vida [ND XIII, 144, Carta ao Sr. Lairé, 8 de Maio de 1851] e que, se há uma lacuna percetível entre o que pregamos e o que vivemos, os outros vão ver facilmente por ela e dizer que “estamos simplesmente fazendo um trabalho” [Regra Provisória Texto e Comentário (ed. F. Nicolas), p. 12]. Suas palavras continuam a ter profundas implicações para nós em termos de testemunho que somos chamados a dar como uma congregação internacional num mundo cada vez mais fragmentado e individualista. Que o Espírito de Pentecostes que nos congregou e reuniu numa grande família, continue a moldar-nos para que possamos realmente ser testemunhas eficazes da mensagem que pregamos.

John Fogarty, C.S.Sp.

Superior Geral

 

This entry was posted in Informações Espiritanas. Bookmark the permalink.